Sábado, 9 de Maio de 2009

onde?

onde dormiremos
se nossa cama está em chamas
e nossos lençóis são brasa acesa?

onde passaremos os próximos tempos,
se nossa casa foi destruída
e nossos vizinhos deixaram a vila?

onde estaremos quando o sol nascer de novo,
se o que vejo são folhas secas
espalhadas pelo chão rude
de uma floresta perdida?

aonde irão nossos filhos,
se a casa é o fogo,
o fogo se alastra
em labaredas que tocam o céu?

Segunda-feira, 4 de Maio de 2009

ampulheta

quando deixarmos este lugar
ninguém se lembrará de nós dois
e daquilo que ora fizemos.

ninguém cantará nossa canção
e nem acenderá nossas luzes apagadas.
o que foi feito, então, será nada.

por isto, amanhã,
antes de acordar,
de olhos ainda fechados
pense no que o dia trará;

pense nas asas do anjo que irá nos levar,
e imagine quantas palavras nunca ditas
serão atribuídas a nossa autoria,
e que nossos rastros serão dizimados pelo tempo.

a cidade deixará tuas imagens para trás,
como mãe que rejeita seus filhos.
as ruas não se lembrarão de seus passos,
e nosso vôo não terá a lembrança
curta dos aeroportos.

quando deixarmos este lugar,
o vento levará as cinzas
de nossos dias para o mar.

Domingo, 5 de Abril de 2009

de braços abertos
te espero no centro do mesmo jardim
onde mordeu minha bochecha
e me jurou vingança.

você vociferou, chorou raiva,
e amargou a derrota
do final do passeio.

(te puxaram pelo braço,
te levaram para casa.)

eu triunfei com a crueldade {de toda criança}
e a latejante marca no rosto.

sentado no banco de concreto
me esperava um pai que perdi
num destes passeios ao jardim.

(disse que voltava e nunca voltou.)

estou no jardim e te espero.

você nunca terminou a mordida,
a briga do primeiro ódio,
do primeiro amor.

Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

hoje eu completo 33 carnavais. literalmente, porque nasci numa segunda de carnaval, ano bissexto. dizem que é a idade da completude. um amigo disse que a gente "zera a kilometragem aos 33". outro disse que é a idade da sabedoria. eu penso em Jesus, que tinha a vida toda pela frente, mas que encarou peixe grande da época, e foi crucificado como marginal, pilantra, ao lado de dois ladrões. eu penso nisto não porque 33, mas porque se a sabedoria é esta afronta ao poder, e é este amor generoso, deus-me-guarde, ou deus-me-crie.

Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2009

eu acreditava

Eu acreditava naquele Noé que desce da arca, com a narração de Chico Buarque e texto do Vinícius:
“(...) E abre-se a porta da arca/ Lentamente surgem francas/ a alegria e as barbas brancas/ do prudente patriarca (...)”

Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Every Time I See You Falling -New Order

Eu acordei precisando ouvir esta música do New Order. Entrei no youtube e encontrei uma doce interpretação (de cantora que desconheço): http://www.youtube.com/watch?v=L32858c6Jcw.
Esta música se parece com as caixas que abri semana passada. Empoeiradas pelo tempo, abri duas velhas caixas, uma que data de cerca de 18 anos e outra 13 ano atrás. Nelas eu guardo guardanapos de restaurantes, flyers de shows, vouchers de teatro, ingressos de cinema, diários e agendas vencidos, desenhos de colegas do colegial, fotos de amigos da universidade, cartinhas de amor que nunca foram enviadas (porque os amores eram tão incertos quanto a eficiência das palavras ali escritas).

Eu pensava/cantarolava: Every time I see you falling/I get down on my knees and pray...


Nestas caixas ficam guardadas boas e péssimas recordações. Tem sempre um ingresso de cinema que te lembra as lágrimas do final do filme, ou uma fitinha vermelha que te recorda a noite em que você vestiu a melhor blusa que tinha para ir ao bar e ela te traiu no começo da noite, descosturou no cólo, e você passou horas a fio curvada, quase imóvel, para que ninguém visse o que você escondia entre a costura e a pele.

A música que eu trazia no fundo da caixa, presa, saiu com a letra toda. Segue ela para quem quiser recordar de coisas que ficam guardadas em caixas por anos e que, quando veem a luz do dia, podem tornar-se pó, como vampiros das histórias em quadrinhos.


Every time I think of you
I get a shot right trough
Into a bolt of blue
It’s no problem of mine
But it’s a problem I find
Living a life
That I can’t leave behind

There’s no sense in telling me
The wisdom of a fool won’t set you free
But that’s the way that it goes
And there’s nobody knows
Well every day my confusion grows

Every time I see you falling
I get down on my knees and pray
I am waiting for the final moment
You’ll say the words that I can’t say

I fell fine, and I fell good
I fell like I never should
Whenever I get this way,
I just don’t know what to say
Why can’t we be ourselves
like we were yesterday

I’m not sure what this could mean
I don’t think you’re what you seem
I do admit to myself
That if I hurt someone else
Then we’d never see just what we’re meant to be

cry me a river

(I can't sing this song today
'cause I' m a lonely river)

I' m running so fast to the ocean
and I will mix my sweet with it salt
in my wet soul.

I've been made of water
tears and love,
rain and passion,
since I knew you.

I'm going to the ocean,
like a river that met
the life that it left behind,
in time.

I've begun a river
when I proved Baal' kisses.

But now I am a river
where Baal throwe
and keept his smiles
I was a woman,
but today I am a river,
cry me a river.

I am waiting for his shadows,
and waiting for his shine,
and afraid of his weather
and afraid of his sister.

I am the water where Baal had gone
to take a shower,
when he woke up
of the nightmare song.

I am a river where he borns and dies,
every night.